terça-feira, 2 de abril de 2013


II.5 Intervenções de Enfermagem ao Cliente com Dor



O presente documento surge no âmbito do módulo Intervenções de Enfermagem à Pessoa com Dor.




Imagem II.5 – 1. “The wounder deer” Retirado de http://www.daydaypaint.com/blog/category/frida-kahlo a 20.03.2013.


A pintura acima, foi criada por Frida Kahlo em 1946, no seguimento de uma cirurgia à coluna mal sucedida. Frida Kahlo retratou-se a si mesma na figura de um veado ferido com várias flechas simbolizando a dor difusa e concomitante à qual estava sujeita diariamente. O céu azul iluminando o veado ferido poderá ser interpretado como a esperança que a autora mantinha no controlo da sua dorsalgia. Contudo, e apesar de todos os tratamentos que realizou, a dor permaneceu… Mas afinal que dor era esta tão difícil de extinguir?

De acordo com COSTA et al (2005, p.900), “a dor é aquilo que o doente referir como tal, e é esta subjetividade na sua definição que torna o combate à dor muitas vezes difícil”. Segundo a mesma fonte, a definição que prevalece desde 1982 foi construída pela “American Pain Society”, que define a dor “como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a dano tecidular presente ou potencial, ou descrita em termos de tal dano”.


A Dor deve ser encarada com seriedade pois, tal como enunciado no Guia Orientador de Boa Prática (Ordem dos Enfermeiros, 2008), “o controlo da dor é um direito das pessoas e um dever dos profissionais de saúde” (p.9).

Em 2003, a Direção Geral de Saúde (DGS) publicou a Circular Normativa N.º9/DGCG, que afirmou a Dor como 5º Sinal Vital. Ou seja, para além da Tensão Arterial, da Frequência Cardíaca, da Temperatura e da Respiração, temos (Enfermeiros) o dever de avaliar e registar (e atuar, resultados anormais) também na dor (DGS, 2003).


De acordo com o inscrito na mesma Circular Normativa, a dor é um fenómeno que está presente na maioria das situações patológicas que carecem de cuidados de saúde.  

A dor é um fenómeno complexo, multidimensional, único, dinâmico e subjetivo. A sua perceção é o principal motivo para a procura de cuidados de saúde, principalmente. A classificação mais comum da dor divide-a em dois campos: aguda e crónica.

A dor aguda costuma ser breve, de causa conhecida e a sua intensidade pode variar de moderada a grave. O tratamento da dor aguda é dirigido de modo a eliminar a causa. Na dor crónica, sabe-se que permanece para além de três meses. A sua causa pode ou não ser conhecida. Tem intensidade variável e uma panóplia de tratamentos possíveis.

Em 2008, a DGS divulgou o Programa Nacional de Controlo da Dor (Circular Normativa N.º11/DSCS/DPCD, DGS, 2008), pelo qual pretende tirar basear-se em experiências adquiridas, determinar novos objetivos e novas estratégias operacionais no controlo da dor. A mesma Circular Normativa atribui prioridade ao controlo da dor na prestação de cuidados de saúde e, ao mesmo tempo, define-o como “fator decisivo para a indispensável humanização dos cuidados de saúde” (p.2).
          

      Para melhor intervir no controlo da dor, consideramos pertinente explanar sobre o que é a dor e como funcionam os mecanismos neurofisiológicos que a envolvem. Tendo em conta que a dor responde a uma complexa atividade neurofisiológica, e que pode ser percecionada de variadíssimas formas de acordo com a idade, género, cultura, fase do ciclo vital, percebemos o quão difícil pode tornar-se a avaliação correta da dor. Pelo que propomo-nos a dar continuidade ao estudo da dor que iniciámos na aula do referido módulo.

      Nos emaranhados deste labirinto da subjetividade que é a dor, conseguimos perceber, com base em bastante pesquisa bibliográfica, que a dor tem sempre bases fisiológicas e psicológicas comuns. Segundo COSTA et al (2005), a dor é constituída por quatro componentes: afetivo-emocional, cognitiva, comportamental e sensório-discriminativa. 

      A componente afetivo-emocional envolve a dor com sentimentos que a tornam penosa, desagradável e, muitas vezes, insuportável. A componente cognitiva diz respeito ao conhecimento que a pessoa tem da sua dor e o sentido que lhe dá, sendo que este influenciará as reações comportamentais perante o fenómeno da dor. A componente comportamental está relacionada com as manifestações pessoais de cada pessoa perante a dor. A componente sensório-discriminativa está relacionada com os mecanismos neurofisiológicos. A complexa atividade neurológica permite-nos decifrar a qualidade da dor, bem como a sua duração, intensidade e localização das mensagens dos neuro-recetores. Estes mecanismos neurofisiológicos compreendem quatro passos: transdução, transmissão, perceção e modulação.

      A transdução é um processo pelo qual os estímulos nociceptivos (dor) conduzem a atividade elétrica. Estes nociceptores têm um índice elevado de resposta a estímulos intensos mecânicos, térmicos (responsáveis pela dor rápida) e químicos. A dor lenta/ tardia poderá resultar dos três tipos de nociceptores.

      A transmissão consiste no canal pelo qual os impulsos são conduzidos, desde os nervos aferentes principais até ao início da medula espinal. Estas aferências terminam ao nível de múltiplas camadas no corno posterior da medula. As mensagens nociceptivas que chegam a estas fibras ativam as células de transmissão que se situam nas camadas superficiais e profundas da medula dorsal. O corno dorsal da medula compreende dois tipos de neurónios que recebem mensagens nociceptivas a nível periférico: os neurónios nociceptivos específicos e os neurónios nociceptivos não específicos. Estes últimos, têm um padrão de receção mais alargado, recebem mensagens de diversas origens e são eles os responsáveis pelas dores projetadas ou pelos erros de localização.
       A mesma fonte apresenta a teoria do controlo do portão, proposta em 1965 por Melzack e Wall. Segundo esta teoria, subsiste um controlo segmentar que é inibidor da transmissão nociceptiva. É através deste «portão» que «abre e fecha» que a integração da mensagem permite ou não a passagem de informação para estruturas superiores, promovendo ou inibindo a dor. Esta teoria esteve na base para o desenvolvimento de tratamentos para a dor utilizando técnica do calor ou do frio e das massagens. Conclui-se, assim, que existe uma estimulação idónea na cessação quase imediata de algumas dores de origem periférica.
      Para além do corno dorsal da medula, existem outras vias ascendentes envolvidas na transmissão de mensagens nociceptivas a um nível superior, como o córtex cerebral, nas quais se destacam: o feixe espino-talâmico, o feixe espino-reticular e as fibras pós-sinápticas das colunas dorsais.

      A perceção resume-se na tradução da resposta neural em sensação ao córtex cerebral, onde a pessoa identifica a sensação de dor. De acordo com a estrutura que recebe a mensagem, assim será a reação/ ação da pessoa. As estruturas talâmicas recebem mensagens nociceptivas e transmitem informações sobre a localização, intensidade, superfície e duração da estimulação nociceptiva; o feixe espino-reticular está relacionado com a elaboração de reações comportamentais em resposta a estimulações nociceptivas; no cortéx cerebral, se o cortéx parietal apresentar algum tipo de lesão, pode diminuir a sensação dolorosa.

      A modulação consiste no controlo da transmissão de dor e pode incluir tanto a inibição como a ênfase do estímulo nociceptivo. A modulação envolve recetores opiáceos no cortéx, a meio do cérebro, medula espinal, aparelho gastro intestinal, bexiga e útero. Este mecanismo tem a capacidade de anular a própria dor. Tomamos como exemplo desta capacidade notável de um sistema analgésico endógeno que, quando estimulado, consegue inibir a dor, as morfinas endógenas do SNC (endocefalinas) e nos cornos posteriores da medula (endorfinas). 

     A acunputura é muito utilizada para estimular este processo de analgesia endógena, principalmente na dor crónica.

      Tendo em consideração que a dor assenta nestes princípios neuro-fisiopatológicos, podemos concluir que a dor surge quando:

       - um determinado estímulo atua no recetor doloroso;

        -um impulso é desencadeado e transmitido ao cérebro pelas fibras de condução    dolorosa; 

        - nenhum mecanismo endógeno, terapêutico ou médico impeça a transmissão do impulso;

       - o estímulo seja consciencializado pelo individuo.

      Através da compreensão do mecanismo fisiopatológico da dor e do conhecimento da atuação dos químicos (terapêutica) no nosso organismo, é possível perceber a adequação da medicação e o seu sucesso ou não em função da patologia e das condições psicológicas e sociais da pessoa. É importante referir que existem dores cuja causa ainda não foi reconhecida.



      Segundo BUDÓ et al (2007, p.), “A cultura exerce grande influência em todos os aspetos da vida das pessoas, incluindo suas crenças, comportamentos, perceções, emoções, religião, estrutura familiar, linguagem, alimentação, vestuário, imagem corporal e, entre outras situações, exerce um poderoso efeito na tolerância ou não à dor.” De acordo com os mesmos autores, a cultural, grupo social e, por vezes, no seio da mesma família, possui uma linguagem singular e individualizada, que consiste num conjunto de termos próprios através do qual a pessoa com dor mostra aos demais o seu sofrimento. A tolerância à dor é variável e está relacionada com fatores sensoriais (localização e extensão da lesão celular), genéticos, emocionais (medo, ansiedade, raiva), culturais (aprendizagem, experiências anteriores, significado simbólico da dor) e sociais. Perante a diversidade de fatores, é claro depreender que a tolerância à dor também será variável. Para além disso, a visão da dor pode ser muito diferente entre os profissionais de saúde e entre as pessoas com dor. Algumas pessoas podem não se sentir doente por sentirem dor alguma. Alguns profissionais de saúde podem não percecionar que a pessoa tem dor, pois normalmente a dor não está associada à patologia da pessoa. Ao depararmo-nos com tanta subjetividade, percebemos que a apreciação, perceção e sensação de dor pode variar muito tanto entre as pessoas como entre os profissionais de saúde, pelo que deve de ser sempre explanada o melhor possível.

      Sendo os enfermeiros os mais privilegiados na proximidade e tempo de contato com a pessoa que carece de cuidados, são os profissionais de saúde com mais responsabilidade na promoção e intervenção do controlo da dor, contribuindo para a satisfação da pessoa, o seu bem-estar e o seu autocuidado. (Guia Orientador de Boa Prática: Dor, OE, 2008).

      Atualmente, e sendo a dor considerada o 5º sinal vital, temos fundamentado e ao nosso alcance todos os intrumentos que nos permitem avaliar o mais proximo possivel da realidade a intensidade da dor.

      Existem vários instrumentos de autoavaliação da dor, denominados escalas. A escala visual analógica, a escala numérica, a escala de faces e a escala qualitativa. O enfermeiro deve aplicar qualquer um destes instrumentos de acordo com o tipo de dor, a idade, a situação clínica, a propriedades psicométricas, os critérios de interpre­tação, uma escala de quantificação comparável, a facilidade de aplicação, a expe­riência de utilização em outros locais. O enfermeiro deve certificar-se que da compreensão das escalas por parte da pessoa/ família/ prestador de cuidados antes da sua aplicação. Quando a pessoa adapta-se a uma escala, significa que consegue expressar a sua dor através deste instrumento e que a nossa resposta para o controlo da dor (medidas terapêuticas e não terapêuticas), por isso, podemos mantê-la.

      Ainda de acordo com Guia Orientador de Boa Prática: Dor (OE, 2008), o controlo da dor compreende a prevenção e o tramento da dor, pelo que o enfermeiro deve agir sempre no sentido de antever a dor, intervindo no sentido de eliminar ou reduzir a dor, expressa pela pessoa.

      Seguidamente, apresentaremos o algoritmo para o controlo da dor proposto pela OE (2008):




 


Segundo Nunes (in Prefácio do Guia Orientador de Boa Prática: Dor, OE, 2008), os enfermeiros sabem que “a negação ou desvalorização da dor do Outro é um erro ético no confronto com o sofrimento e a dor, bem como uma falha na excelência do exercício profissional”. Logo, e tendo em conta o artigo 4º do Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (REPE, Lei n.º 111/2009, artigo 4º- “Enfermagem é a profissão que, na área da saúde, tem como objetivo prestar cuidados ao ser humano, são ou doente, ao longo do ciclo vital, e aos grupos sociais em que ele está integrado, de forma que mantenham, melhorem e recuperem a saude, ajudando-os a atingir a sua máxima capacidade funcional tão rapidamente quanto possível.”) concluimos que, o enfermeiro assume na excelência dos seus cuidados a responsabilidade da decisão clínica que deverá ser suportada por conhecimento cientifico acerca dos mecanismos da dor, bem como da esfera psico-socio-cultural que a envolve, tornando imprescindivel a sua intervenção na prestação de cuidados de saúde.
 


 

Bibliografia


BLACK, J. M., & MATASSARIN-JACOBS, E. - Enfermagem Médico-Cirúrgica - Uma Abordagem Psicofisiológica - 4ª edição, vol. 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993.

BOLANDER, V. B. - Enfermagem Fundamental - Lisboa: Lusodidacta, 1998.

BUDÓ, M. d., NICOLINI, D., RESTA, D. G., BÜTTENBENDER, E., & Michele Camponogara PIPPI, L. B. - A cultura permeando os sentimentos e as reações frente à dor - Revista Escola Enfermagem USP, n.º 41 (1), 2007, pp. 36-43.

COSTA, C., MAGALHÃES, H., FÉLIX, R., COSTA, A., & CORDEIRO, S. - O Cancro e a Qualidade de Vida - A quimioterapia e outros fármacos no combate ao cancro - Lisboa: Editora Norvatis, 2005.

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE - Circular Normativa N.º 09/ DGCG: A dor como 5º sinal vital. Registo sistemático da intensidade da Dor. Lisboa, 14 de junho de 2003.

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE - Circular Normativa N.º 11/ DSCS/ DPCD - Programa Nacional de Controlo da Dor. Lisboa, 18 de junho de 2008.

McCAFFERY, M., & BEEBE, A. - Pain: Clinical Manual for Nursing Practice. Baltimore: The C.V. Mosby Company, 1989.

MELZACK, R., & WALL, P. - O desafio da Dor. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

METZGER, C., & al, e. - Cuidados de Enfermagem e Dor. Loures: Lusociência, 2002.

ORDEM DOS ENFERMEIROS - Guia Orientador de Boa Prática: Dor - Cadernos da OE. Lisboa: Edição Ordem dos Enfermeiros, 2008.

ORDEM DOS ENFERMEIROS - Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Enquadramento Concetual. Enunciados Descritivos. Lisboa: Edição OE, 2001.

ORDEM DOS ENFERMEIROS - Regulamento Do Exercício Profissional Dos Enfermeiros, Lei 111/2009. Lisboa: Diário da República.

PHIPPS, W. J., SANDS, J. K., & MAREK, J. F. - Enfermagem Médico-Cirúrgica - Conceitos e Prática Clínica - 6ª edição. Loures: Lusodidacta, 2003.

PIMENTA, C., MOTA, D., & CRUZ, D. - Dor e Cuidados Paliativos: Enfermagem, Medicina e Psicologia. São Paulo: Editora Manole, 2006.

REGULAMENTO DAS COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DO ENFERMEIRO ESPECIALISTA EM ENFERMAGEM EM PESSOA EM SITUAÇÃO CRÍTICA - Regulamento n.º 124/2011. Diário da República, 2ª série, n.º 35, 18 de Fevereiro de 2011.

STEIN, C. - Os opiáceos da Dor: Aspectos Básicos e Clínicos. 1ª edição. Lisboa: Climepsi Editores, 2001.




II.4.1 Cuidados ao Cliente com Múltiplos Sintomas


$ Breve análise histórica: WHO e a Higiene das Mãos

Desde 1945, que diplomatas de várias nacionalidades se reúnem com a preocupação de resolver questões relacionadas com a saúde da sua década e o propósito de desenvolver uma organização mundial de saúde. A World Health Organization (WHO) foi, finalmente, constituída a 7 de abril de 1948.


Imagem II.4 – 1. Retirado de: http://www.who.int/en/ a 02.03.2013.

 Ao longo dos anos, a WHO tem vindo a desenvolver trabalho pelos cinco continentes. A preocupação principal é levar a toda a população, principalmente aos países mais desfavorecidos, não só cuidados de saúde de qualidade mas também promover alimentação, conforto, carinho e condições de higiene e segurança. Ao navegarmos pela página de website da WHO (http://www.who.int/en/), apercebemo-nos de uma panóplia de projetos que foram fomentados com o objetivo de dar resposta a necessidades reais.

Uma das apostas da WHO é sem dúvida o controlo da infeção associada aos cuidados de saúde. Em 2004, a WHO criou o projeto World Alliance for Patient Safety (disponível em http://www.who.int/topics/patient_safety/en/ ), com o objetivo de promover a segurança do doente e, consequentemente, reduzir os efeitos adversos associados aos cuidados de saúde, estejam eles relacionados com a prática profissional, a administração de terapêutica, a realização de procedimentos invasivos e não invasivos ou mesmo com o próprio sistema de saúde vigente. A pedra basilar deste projeto foi sem dúvida a sensibilização dos profissionais de saúde. Pois, se tivermos consciência real das consequências dos nossos atos, decerto estaremos mais atentos aos riscos e mais preocupados em adquirir conhecimentos que nos permitam prestar cuidados de saúde de qualidade e adequados à situação que temos presente. Este projeto compreende um vasto leque de ações nos domínios da melhoria do desempenho do profissional de saúde e da segurança ambiental e gestão de risco, que inclui o controlo de infeção, o uso seguro de medicamentos e dispositivos/ equipamentos de uso clínico, a realização de
uma prática segura em ambiente limpo e seguro, quer para o cliente, quer para o profissional de saúde.
 
Imagem II.4 – 2. Retirado de: http://www.who.int/topics/patient_safety/en/ a 02.03.2013.

 

No decorrer deste projeto (World Alliance for Patient Safety), surgem diversos documentos e iniciativas. Anualmente, são criadas iniciativas com a denominação Global Patiente Safety Challenge para promover a melhoria contínua da segurança do cliente.         

Em 2005, foi criado o primeiro Global Patiente Safety Challenge, designado de Clean Care is Safer Care. O objetivo major deste projeto era prevenir infeções associadas aos cuidados de saúde, garantindo o reconhecimento da importância do controlo da infeção na segurança do cliente e a aposta na redução das infeções associadas aos cuidados de saúde. É neste âmbito que surge a preocupação com a correta higiene das mãos. Era urgente sensibilizar os profissionais de saúde a melhorar, manter e difundir a prática da higienização das mãos, no momento certo e da maneira certa, com a finalidade de reduzir o risco de propagação de microrganismos em unidades de saúde ou outros locais onde sejam prestados cuidados de saúde (por ex.: casas de acolhimento de idosos, infantários,…). A implementação da estratégia de melhoria da higiene das mãos com o slogan «medidas simples salvam vidas» foi difundida por todo o mundo, inclusive por Portugal, proclamando a mensagem de que a higiene das mãos é a medida com mais impacto na redução da propagação da infeção, na diminuição da resistência aos antimicrobianos e na redução dos custos associados a estas problemáticas.

 
 

O resultado foi positivo: após formação dos profissionais, verificou-se que há cada vez mais cuidado na correta higienização das mãos, da maneira certa e no momento certo. Contudo, também nos apercebemos que esta sensibilização não pode ser interpretada como concluída. É difícil mudar velhos hábitos e introduzir “novas tarefas” em intervenções que antes demoravam 15 minutos e agora passam a demorar 16,5 minutos, tendo em conta que uma adequada lavagem das mãos com água e sabão demora 1 a 1,5 minutos. É importante lembrar, constantemente, que esta pequena diferença de tempo pode mudar o destino de alguém, de um cliente, da sua condição de saúde, das suas necessidades de cuidados de saúde, de um internamento hospitalar e todos os gastos monetários inerentes.

Realçamos o documento produzido pela WHO: WHO Guidelines on patient safety (http://www.who.int/gpsc/5may/tools/9789241597906/en/index.html ) onde está inserido o documento que enumera e descreve as linhas orientadoras da correta higiene das mãos nos cuidados de saúde.

Decorria o «Ano Internacional do Saneamento», 2008, quando Portugal aderiu a este projeto, no dia 8 Outubro de 2008 (http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/noticias/arquivo/2009/12/higiene+maos.htm ). No mesmo ano (2008), a Direção Geral de Saúde emitiu publicamente a Estratégia Nacional para a Melhoria da Higiene das Mãos nas unidades de saúde, assumindo formalmente o compromisso nacional para a adoção de medidas que promovam a redução das infeções (ou risco de) associadas aos cuidados de saúde. Em junho de 2008, a Direção Geral de Saúde lançou a campanha para promover a higiene das mãos, notícia disponível em http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/noticias/arquivo/2009/12/higiene+maos.htm

 O Plano Nacional de Prevenção e Controlo das Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde está disponível em: http://www.dgs.pt/ms/3/default.aspx?pl=&id=5514&acess=0

O dia 15 de Outubro ficou marcado como o Dia Mundial da Higiene das Mãos, proclamado pela WHO, em 2008. Neste âmbito, foram desenvolvidas atividades de sensibilização e ensino da técnica correta de higiene das mãos em vários países dos cinco continentes. Estas atividades eram (são) direcionadas não só direcionadas para os profissionais de saúde, mas também para a população em geral. Aos profissionais de saúde, foi feito o ensino da higienização das mãos, dando particular atenção à desinfeção das mãos e aos seus benefícios no controlo da propagação da infeção. À comunidade, foi ministrado o ensino da correta lavagem das mãos, bem como dos momentos essenciais em que deve de ser realizada.

 

Imagem II.4 – 4. Retirado de: http://www.who.int/gpsc/events/2008/15_10_08/en/index.html a 02.03.2013

Atualmente, todos os anos em Outubro, são mobilizadas várias iniciativas nas unidades de saúde a nível mundial com o intuito de continuar a promover a técnica de higiene correta das mãos e a sensibilizar os profissionais para os ganhos em saúde que esta simples medida pode ter.

A prática da higiene (e desinfeção) das mãos, bem como o cuidado aos cinco momentos em que deve ser feita, é comum do nosso dia-a-dia em qualquer âmbito. Atualmente, a maior preocupação é manter estes bons hábitos e transmiti-los, de forma efetiva, às famílias que vêm ao hospital visitar as pessoas internadas. Este último objetivo nem sempre é fácil, mas é um desafio consciencializar a comunidade a cuidar melhor de si. Pelo que, continuaremos a sensibilizar para a importância da correta higiene das mãos.

 

NOTA: todas as referências eletrónicas utilizadas nesta dissertação estão disponíveis ao longo do texto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II.3 Cuidados ao Cliente com Falência Multiorgânica


Reflexão sobre Ventilação Não Invasiva

 
O módulo Cuidados ao Cliente com Falência Multiorgânica foi lecionado por um Médico Intensivista de um Hospital de Lisboa. Foram apresentados em aula alguns apontamentos históricos de medicina intensiva e as principais situações de falência multiorgânica, que são: respiratória, renal e do suporte circulatório. Geraram-se debates muito interessantes e completos, do ponto de vista do paradigma biomédico. Contudo, no concerne aos cuidados de enfermagem e, contrariamente ao que foi estipulado na ficha para a unidade curricular de médico-cirúrgica I, em que o ponto 2 do programa do módulo refere que seriam abordados “Focos da prática de enfermagem dirigidos para os clientes/ família em falência multiorgânica” (http://moodle.ess.ips.pt/mod/folder/view.php?id=9336 ), o que não aconteceu. Pelo que, consideramos que este módulo ficou aquém das expetativas, pura e simplesmente porque faltou um Enfermeiro para ministrar estas temáticas. A falta que faz um Enfermeiro!...

Assim, como forma de colmatar necessidades de aportes teóricos relacionados com os focos de intervenção de enfermagem em cuidados intensivos, decidimos escolher um tema que fosse desconhecido do ponto de vista da prática diária (no nosso caso particular), e explorá-lo.

Tema escolhido: Ventilação Não-Invasiva

A escolha deste tema deve-se não só ao conhecimento insuficiente que temos com a sua prática clínica, mas também à visualização de uma imagem (que apresentamos abaixo) durante a exposição do módulo em estudo.



Esta imagem exibe uma unidade de cuidados intensivos repleta de ventiladores por pressão negativa, todos ocupados por pessoas contaminadas com o surto da poliomielite. Olhar esta imagem provocou-nos sentimentos antagónicos: maravilha e horror.

Por um lado, ficamos maravilhados com tamanha descoberta numa época com tão poucos recursos. Segundo  (Phipps, Sands, & Marek, 2003), a poliomielite é uma infeção viral muito contagiosa, que pode ser contraída pela ingestão de substâncias contaminadas por fezes infetadas com o poliovírus (enterovírus), e que se dissemina no organismo, atingindo rápida e gravemente o cérebro e a espinal-medula. Pode provocar fraqueza muscular permanente, paralisia e outros sintomas e, por vezes, a morte. Com a disseminação do surto da gripe, na década de 1940, tornou-se urgente encontrar uma forma de contrapor a progressiva debilidade muscular, que provocava não só deficits a nível motor como também, e principalmente, respiratórios. A VNI por pressão negativa foi a  solução. A técnica consistia em criar uma pressão subatmosférica em redor do toráx e do abdómen da pessoa, que era mantida em câmara fechada para aumentar a pressão transpulmonar, fazendo com que a pressão atmosférica ao nível da boca insuflasse os pulmões (inspiração). A expiração ocorria de forma passiva, através do recolhimento elastico dos pulmões e do retorno da pressão em redor da caixa toráxica para níveis atmosféricos. Quanto maior a área corporal abrangida pelo aparelho, mais eficaz seria a técnica, daí o uso de câmaras em que só a cabeça ficava de fora. Salvaram-se muitas vidas graças a esta técnica tão revolucionária para a época.

Por outro lado, esta imagem transmite-nos horror. Ver uma série de pessoas conscientes e orientadas fechadas dentro de cilindros de aço para conseguirem tão somente respirar, pelo resto das suas vidas, é medonho! A independência nas atividades de vida (AV’s) destas pessoas já estava condicionada pela infeção. Adicionando a este quadro, uma técnica não invasiva, mas que na verdade invadia completamente o espaço entre a pessoa doente e o prestador de cuidados, percebemos o quão difícil deve ter sido prestar cuidados de enfermagem a estas pessoas. Para além do desconforto físico e das complicações associadas à VNI por pressão negativa (entre outras, a tosse ineficaz, que promovia a acumulação de secreções na orofaringe devido à posição obrigatória para esta técnica, decúbito dorsal), não podemos deixar de refletir sobre o desconforto psicológico e emocional a que estas pessoas estavam sujeitas. Na imagem, conseguimos visualizar várias câmaras justapostas. As pessoas conseguem olhar-se entre si, pelo «canto do olho». Mas permanecem inertes. O seu campo de visão mais generoso é o teto.

Após pesquisa, encontramos algumas imagens de câmaras de VNI por pressão negativa em que eram colocados espelhos à frente da pessoa para que pudesse ter uma visão mais alargada do que se passava à sua volta, bem como objetos distratores (livros, fotografias e outros). Encontramos também imagens em que a família posa junto da pessoa com poliomielite, para a fotografia.

Para perceber melhor como era colocada a pessoa na câmara de VNI por pressão negativa e como eram prestados os cuidados de enfermagem à pessoa que ali estava encerrada, realizamos algumas pesquisas das quais resultaram:

Testemunho real de uma pessoa contaminada com o vírus da poliomielite:
http://www.youtube.com/watch?v=4dt6jeR58Yk

Descrição dos cuidados de enfermagem à pessoa perante a VNI por pressão negativa:
http://www.youtube.com/watch?v=kVhtV6_Rdog

Como funciona a câmara de VNI por pressão negativa – parte 1:
http://www.youtube.com/watch?v=jywAB0Wio-Y

Como funciona a câmara de VNI por pressão negativa – parte 2:
http://www.youtube.com/watch?v=YxTOIZHuDvM

 
Este tema suscitou-nos curiosidades, pelo que procurámos saber quando e como começou…

De acordo com os conteúdos apresentados em aula do presente módulo, Stephen Hales (1743) estudou o papel da água e do ar na manutenção das plantas e da vida animal, descobriu os perigos de respirar ar saturado e inventou um ventilador que melhorasse as taxas de sobrevivência em locais de trabalhos fechados (navios, hospitais e prisões). Contudo, o primeiro ventilador mecânico foi inventado apenas em 1908, por George Poe. As suas primeiras experiências foram com cães, ratos e coelhos. Experiências pioneiras que viriam a revolucionar a ciência biomédica. Tal como diria Neil Armstrong quando pisou a lua, “that’s one small step for men, a giant leap for mankind”. Contudo, do ponto de vista bioético, se tais experiências fossem planeadas nos dias de hoje, teriam uma série de opositores. Desde alegar princípios éticos que defendem a utilização de animais em experiências, passando por movimentos defensores dos direitos dos animais, muito seria feito no sentido de bloquear estes ensaios clínicos. Tal como consta no artigo 8º da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada pela United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) em: http://www.urca.br/ceua/arquivos/Os%20direitos%20dos%20animais%20UNESCO.pdf

De acordo com Susana Ferreira et al (2009) no artigo de revisão disponivel em: http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/pdf/pne/v15n4/v15n4a06.pdf , o surto de poliomielite (1930 – 1950) despoletou a aplicação da VNI. A base da técnica era a utilização da ventilação por pressão negativa, que resumia-se à “aplicação de pressão subatmosférica externa ao toráx simulando a inspiração, ocorrendo a expiração de forma passiva”  (p.656).

Segundo a DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE (2002), a história mundial da poliomielite mudou, em 1955, com a descoberta da vacina pelo Dr. Salk. Eram necessários três tipos de vírus mortos e a sua eficácia ainda não era a desejada. Em 1957, Dr. Albert Sabin criou a vacina oral contra a poliomielite. Esta é mais barata e de maior eficácia, mas ainda assim acarreta o risco de contrair a infeção na proporção 1: 1 milhão, pois a vacina é constituída pelo vírus inativo da poliomielite. Em Portugal, a vacina da poliomielite marcou o inicio do Plano Nacional de Vacinação (PNV), em 1965.   

Felizmente (do ponto de vista do autor desta reflexão), a VNI por pressão positiva começou a ser desenvolvida nas décadas de 40 e 50. Contudo, só em 1980 ocupou lugar de destaque com a introdução do continuous positive airway pressure (CPAP), com indicação de utilização no sindrome de apneia obstrutiva do sono, com bons resultados.

Segundo Phipps (2003), a ventilação não-invasiva por pressão positiva consiste na aplicação de suporte ventilatório na via aérea sem recorrer a métodos invasivos. Esta prática inclui uma série de técnicas dirigidas ao aumento alveolar, sem a necessidade de recorrer a técnicas invasivas como a entubação orotraqueal ou traqueostomia. Consegue-se, assim, corrigir muitas complicações respiratórias agudas em doença pulmonar crónica obstrutiva (DPOC), entre outras.


Para dar então resposta ao ponto de partida da nossa pesquisa, pesquisamos uma panóplia de livros e revistas que debatem sobre a VNI por pressão positiva, técnica atual que nos é ensinada no curso de licenciatura em enfermagem.

Tendo em conta que a disciplina de enfermagem compreende, sem sombra para dúvida, as valências humana e científica, consideramos pertinente ter conhecimentos sólidos nesta última para melhor fundamentar as intervenções de enfermagem à pessoa e sua família. Assim, salientamos alguns tópicos de relevo e inerentes à prestação de cuidados de qualidade de enfermagem, os quais aprofundamos o seu conhecimento com base em pesquisa bibliográfica (disponível nas Referências Bibliográficas) e na prática baseada na evidência durante os Estágios I e II. Os tópicos:

ü Conhecer como funciona a VNI

ü Características específicas dos aparelhos de VNI

ü Modalidades ventilatórias da VNI

ü Tipos de máscaras de VNI

ü Indicações para a utilização de VNI

ü Vantagens da utilização da VNI

ü Desvantagens da utilização da VNI

ü Contraindicações da utilização da VNI

ü Principais complicações


Após estudo, análise e prática na área, consideramos adquiridas as competências inerentes à prestação de cuidados de enfermagem à pessoa com necessidade de VNI por pressão positiva. Concluímos também que a evolução na ciência baseia-se em experiências que nem sempre são felizes, ou confortáveis, mas que trazem resultados e, sobretudo, ajudam os especialistas a descobrir novas técnicas para combater as doenças e infeções.


Referências Bibliográficas e Eletrónicas


BLACK, J. M., & MATASSARIN-JACOBS, E. - Enfermagem Médico-Cirúrgica - Uma Abordagem Psicofisiológica - Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1993, 4ª edição, vol. 2.

BOLANDER, V. B. - Enfermagem Fundamental - Lisboa: Editora Lusodidacta, 1998.

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE - A Vacinação e a sua História. Cadernos da Direção Geral de Saúde, n.º2. Lisboa: Direção Geral de Saúde, outubro de 2002.
FERREIRA, S., NOGUEIRA, C., CONDE, S., & TAVEIRA, N. - Ventilação não-invasiva - artigo de revisão - Revista Portuguesa de Pneumologia, n.º 4, Vol. XV, julho/ agosto de 2009, pp. 655-665.

JUNIOR, C. T., & CARVALHO, C. R. - III Consenso Brasileiro de Ventilação Mecânica - Ventiladores Mecânicos - J Bras Pneumol, n.º 33, supl 2, 2007, pp. S 71 - S 91.

MAGANO, C., REIS, M. J., GUEDES, P., BRITO, R., & MOURISCO, S. - Ventilação não invasiva - Sinais Vitais n.º 72, maio de 2007, pp. 13-19.

MOURISCO, S. - Complicações da Ventilação mecânica não invasiva - Nursing, outubro de 2006, pp. 49-50.

PHIPPS, W. J., SANDS, J. K., & MAREK, J. F. - Enfermagem Médico-Cirúrgica - Conceitos e Prática Clínica -  Loures: Editora Lusodidacta, 2003. 6ª edição.

PINTO, P., & BÁRBARA, C. - Ventilação Não Invasiva na Insuficiencia Respiratória Crónica. Boletim do HPV, vol XIX, n.º 1, Janeiro/ Março de 2006, pp. 41-43.

THELAN, L. A., DAVIE, J. K., & al, e. ­- Enfermagem em Cuidados Intensivos - Diagnóstico e Intervenção. Lisboa: Editora Lusodidacta, 1993.

WINCK, J. C., & MOITA, J. - Sociedade Portuguesa de Pneumologia. 2000. Obtido de Web site da Sociedade Portuguesa de Pneumologia: http://www.sppneumologia.pt/content/normas-da-spp-normas-e-recomendacoes-para-ventiloterapia-domiciliaria

 

 

    

 

 

 

 



segunda-feira, 1 de abril de 2013


II.2 Cuidados em Situação de Crise: Cliente e Família


 

De acordo com aportes da aula do presente módulo, lecionado pela Professora A.A., «crise» envolve rutura, quebra de estabilidade, stress. Se tivermos consciência de que temos muitos recursos, mesmo que nunca os utilizemos, estaremos mais tranquilos. Isto é, tomemos exemplo de uma pessoa que foi intervencionada cirurgicamente e colocou uma prótese definitiva no cólo de fémur. Essa pessoa tem alta clínica e, portanto, indicação de que pode seguir para o seu domicílio levando consigo uma série de prescrições terapêuticas que deverá cumprir (desde antibioterapia, terapia anticoagulante e analgésica). No momento da alta, a pessoa não colocou dúvidas e o profissional de saúde não esclareceu porque pensou que a pessoa sabia tudo o que precisava. Ao chegar a casa, e perante questões tão simples (na óptica do profissional de saúde) como visualizar um penso cirúrgico externamente sujo e não saber quem contatar, torna-se um fator gerador de stress que poderá trazer várias complicações (desnecessárias) aquela pessoa. Ao invés, se o profissional de saúde assegurar-se de que a pessoa intervencionada cirurgicamente tem todas as informações de que necessitará no domicílio (sozinha com a família e sem apoio direto hospitalar), validando essas mesmas informações, e disponibilizando um contato do serviço clínico (neste caso, um serviço de cirurgia) ao qual a pessoa esteve vinculada, que pode ser utilizado a qualquer hora, para colocar qualquer dúvida que a pessoa tenha, estaremos a proporcionar meios para evitar a crise provocada pela ansiedade. Ou seja, estamos a dar recursos à pessoa que pode utilizar ou não (utiliza sempre que sentir necessidade) e são minimizadores de stress.

Na nossa prática profissional, numa Unidade de Cuidados Paliativos, temos esta prática enraizada de disponibilizar não só à pessoa no momento da sua alta, bem como ao familiar mais próximo e/ou prestador de cuidados, todos os contatos da unidade que podem (e devem) ser utilizados sempre que haja uma alteração da normalidade, como por exemplo, se a pessoa sente dor nos intervalos da medicação que faz segundo esquema prescrito pelo médico, o prestador de cuidados contata telefonicamente o serviço no sentido de questionar sobre o que deve fazer. Verificamos que esta prática tem diminuído o recurso dos doentes seguidos pela Unidade de Cuidados Paliativos deste Hospital, bem como minimizado os sentimentos de stress e ansiedade percecionados pela pessoa/ família/ prestador de cuidados associados a recorrência aos serviços de urgência.

No que concerne às visitas e acompanhamento de familiares aos doentes internados, a Direção Geral de Saúde pronunciou-se claramente na Circular Normativa N.º4/ DSPCS (DGS, CN-N.º4, 28/01/2000), ao afirmar que o acompanhamento familiar poderá ser um contributo valioso na preparação da alta clínica da pessoa e na continuidade dos cuidados, principalmente, quando nos referimos às pessoas com doença crónica. As visitas dos acompanhantes têm assim um papel preponderante no domínio social, afetivo e emocional, pelo que traduz uma mais-valia na gestão da crise e do stress associado aos cuidados de saúde.

No que toca à informação em saúde, os profissionais de saúde têm o dever não só de informar, mas também o dever de respeitar, defender e promover o direito da pessoa ao consentimento livre e esclarecido. O consentimento informado deve estar inerente na prática do cuidar em enfermagem. O enfermeiro deve informar de forma honesta e compreensível todos os procedimentos a realizar, esta informação é imprescindível para que o consentimento seja considerado válido no processo de decisões do seu próprio cuidado. Na sua essência o consentimento informado é um motor da participação dos clientes no seu próprio tratamento, conduzindo-os a participarem continuada e ativamente no planeamento dos seus projetos de saúde, tornando-os parceiros de excelência.

Segundo o Código Deontológico dos Enfermeiros (OE, 2009), o enfermeiro deve ainda cumprir e fazer cumprir o artigo 85º – do dever de sigilo, no qual está escrito que o enfermeiro está obrigado a manter segredo profissional o que toma conhecimento no exercício da sua profissão, assumindo os deveres de: considerar confidencial toda a informação alienada à pessoa que cuida; partilhar informação pertinente apenas com aqueles que estão implicados no plano terapêutico, utilizando critérios orientadores de bem-estar, segurança física, emocional e social da pessoa/ família, bem como os seus direitos; divulgar informação da pessoa apenas nas situações previstas pela Lei, sendo que para tal, deverá solicitar aconselhamento deontológico e jurídico; manter o anonimato da pessoa sempre que o seu caso seja usado em condições de ensino, investigação ou controlo de qualidade dos cuidados.

O dever do sigilo profissional é mais uma segurança que a pessoa tem ao recorrer aos cuidados de saúde, pois tem a certeza de que os princípios da autonomia, beneficência, não maleficência e justiça são respeitados. 

 

Bibliografia

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE – Carta dos Direitos do Doente Internado
Avaliable from World Wide Web:
<http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/informacoes+uteis/direitos+deveres/Carta+dos+Direitos+do+Doente+Internado.htm >
 

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE - Circular Normativa N.º 4/ DSPCS – Visitas e Acompanhamento Familiar a Doentes Internados (28 de janeiro de 2000).
Avaliable from world wide web:
<http://servicosocialsaude.files.wordpress.com/2007/11/visitas-e-acompanhamento-familiares.pdf >
 

DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE – Cuidados Intensivos: Recomendações para o seu desenvolvimento – Lisboa: Direção Geral de Saúde, 2003.
Avaliable from world wide web: <http://www.dgs.pt/upload/membro.id/ficheiros/i006185.pdf >
 

LEI nº 111/2009 - Estatutos da Ordem dos Enfermeiros. 16 de Setembro 2009.
Available from world wide web:  <http://dre.pt/pdf1s/2009/09/18000/0652806550.pdf >
 

MACIEL, M.R.; SOUZA, M. F. – Acompanhante de Adulto na Unidade de Terapia Intensiva: uma visão do Paciente – Revista Acta Paul Enferm n.º 19(2), 2006, 138-143.
 

ORDEM DOS ENFERMEIROS – O acesso à informação de saúde das pessoas, pelos enfermeiros – Parecer Jurisdicional N.º105/2009
Avaliable from world wide web:
< http://www.ordemenfermeiros.pt/documentos/CJ_Documentos/Parecer_CJ_105_2009.pdf>
 

ORDEM DOS ENFERMEIROS, ed. - Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros, Dezembro 2001.
Available from world wide web: 
<http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/PadroesqualidadeCuidadosEnfermagem.pdf >
 

ORDEM DOS ENFERMEIROS – Segurança da Informação em Saúde e Sigilo Profissional em Enfermagem – Parecer Conselho Jurisdicional N.º 194/2010.
Avaliable from world wide web:
< http://www.ordemenfermeiros.pt/documentos/CJ_Documentos/Parecer%20%20194%20-%20seguran%c3%a7a%20da%20informa%c3%a7%c3%a3o%20em%20sa%c3%bade.pdf>
 

REGULAMENTO N.º 122/2011 – Regulamento das Competências Comuns do Enfermeiro Especialista, D. R. 2ª série, N.º 35 (de 18 de fevereiro de 2011) 8648-8653.
Avaliable from world wide web:
<http://www.ordemenfermeiros.pt/legislacao/Documents/LegislacaoOE/Regulamento122_2011_CompetenciasComunsEnfEspecialista.pdf>


REGULAMENTO N.º124/2011 – Regulamento das Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem em Pessoa em Situação Crítica, D. R. 2ª série, N.º 35 (de 18 de fevereiro de 2011) 8656-8657.
Avaliable from world wide web:
<http://www.ordemenfermeiros.pt/legislacao/Documents/LegislacaoOE/Regulamento%20124_2011_CompetenciasEspecifEnfPessoaSituacaoCritica.pdf >

 

 

 

 

 

II.1 Enquadramento Concetual


 
Análise…


Tal como explanado do trabalho que realizámos (Joana Coelho e Rute Matos Pereira) aquando da Unidade Curricular de Filosofia, Bioética e Direito…
 

«A enfermagem é uma profissão que se dedica a cuidar de pessoas, pelo que na sua essência está o respeito pela dignidade humana. Assim sendo, o enfermeiro tem um papel crucial em todo este processo, pois tem um contacto mais prolongado com os clientes e as suas famílias, e como tal, um conhecimento mais aprofundado das suas dificuldades, sentimentos crenças e valores. Ao centrar a sua atuação profissional na relação interpessoal, o enfermeiro valoriza e respeita os valores, as crenças e desejos individuais da família, agindo na defesa da autonomia e no respeito pelas opções das pessoas ao seu cuidado.

Nesta perspetiva, o enfermeiro deverá basear a sua intervenção na defesa dos interesses do cliente/família, na preocupação pela defesa da liberdade e da dignidade e o respeito pela pessoa humana, visando a excelência do exercício profissional (artigo 78º e 79 do Código Deontológico dos Enfermeiros (CDE)). Exige-se cada vez mais que o enfermeiro, para além de respeitar e atuar de acordo com o seu código deontológico, desenvolva também o espírito de reflexão ética que lhe permita agir sempre no respeito pela humanidade do outro.

            Segundo o que é definido pelos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem, emanados pela Ordem dos Enfermeiros (OE) em 2001, a relação terapêutica promovida no âmbito do exercício profissional, caracteriza-se pela parceria estabelecida com o cliente, no respeito pelas suas capacidades e na valorização do seu papel. O enfermeiro deve assumir que atua em parceria com o cliente e que o ajuda na consecução do seu projeto de saúde. Os cuidados de enfermagem tomam por foco de atenção, a promoção dos projetos de saúde que cada pessoa vive e persegue.

            Em 2011, a OE publicou o regulamento das competências comuns do enfermeiro especialista no artigo 5º na alínea a) “desenvolve uma prática profissional e ética no seu campo de intervenção”, e na alínea b) “promove práticas de cuidados que respeitem os direitos humanos e as responsabilidades profissionais”.

            O Enfermeiro Especialista tem que ser um profissional reflexivo, capaz de mobilizar a informação científica, técnica, baseada na prática, de forma a consolidar os conhecimentos e desenvolver as competências definidas para o enfermeiro especialista, proposto pela OE (2007, p.17) “um profissional com um conhecimento aprofundado num domínio específico de Enfermagem, tendo em conta as respostas humanas aos processos de vida e aos problemas de saúde, que demonstra níveis elevados de julgamento clínico e tomada de decisão, traduzidos num conjunto de competências clínicas especializadas relativas a um campo de intervenção”».


            Como forma de nortear o Projeto de Intervenção em Serviço, realizado no âmbito dos Estágios I e II, escolhemos a Teoria da Incerteza na Doença, proposta por Merle Mishel, em 1980.

            A Uncertainty of Illness (Teoria da Incerteza na Doença) foi consultada na fonte eletrónica: https://sites.google.com/a/northgeorgia.edu/merle-mishel-middle-range-nursing-theorist/home/uncertainty-of-illness e nos Livros:

BOLANDER, V. B. - Enfermagem Fundamental. Lisboa: Lusodidacta, 1998.

GEORGE, J. B., & AL, E. - Teorias de Enfermagem - Os Fundamentos à Prática Profissional. 4ª edição: Artemd Editora, 2000.

PARKER, M. E., & AL, E. - Nursing Theories and Nursing Practice. Philadelphia: F.A. Davis Company, 2001.

TOMEY, A. M., & ALLIGOOD, M. R. - Teóricas de Enfermage e a sua Obra - Modelos e Teorias de Enfemagem. 5ª ediçãotraduzida em 2004 para a Lingua Portuguesa Lisboa: Lusociência, 2004.

 

Para complementar este estudo foi consultado o vídeo promocional da Teoria da Incerteza na Doença, em que Merle Mishel fala na primeira pessoa e explica as bases da teoria, como se desenvolve e a sua aplicabilidade. O vídeo está disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=E31I9TgikKM

A teoria de Mishel descreve não só um fenómeno experimentado por indivíduos com doenças agudas e crónicas e pelas suas famílias, mas também a forma como a incerteza pode ativar a diferentes tipos de coping de lidar com a situação. Mishel enumera intervenções de enfermagem próprias baseadas numa apreciação minuciosa da incerteza no doente ou membro da família.

Tendo em conta as Competências Comuns do Enfermeiro Especialista e as Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem em Pessoa em Situação Crítica, consideramos que a Teoria da Incerteza na Doença, proposta por Merle Mishel, confere ao Mestrando e futuro Enfermeiro com a Especialidade de Médico-Cirúrgica, os aportes adequados na sua área de atuação, pois contem os conceitos e os enunciados descritivos direcionados à Pessoa em Situação Crítica e, por isso, compreende os princípios de Enfermagem Médico-Cirúrgica.

 

Mais Bibliografia consultada para a elaboração deste documento:

CARPER, Barbara - Fundamental patterns of Knowing Nursing. Advances in Nursing Science. 1978.

CHINN, Peggy e KRAMER, Maeona - Theory and Nursing: A Systematic Approach. St Louis: Mosby, 1998

FAWCETT, Jacqueline - Contemporary Nursing Knowlege: conceptual models of nursing theories. Philadelfia : F.A. Davis, 2000.

LEI nº 111/2009 - Estatutos da Ordem dos Enfermeiros. 16 de Setembro 2009.

Available from world wide web:  <http://www.ordemenfermeiros.pt/legislacao/Documents/LegislacaoOE/CodigoDeontologico.pdf>.

ORDEM DOS ENFERMEIROS, ed. - Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros, Dezembro 2001.

Available from world wide web: 

<http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/PadroesqualidadeCuidadosEnfermagem.pdf >.

RGULAMENTO N.º 122/2011 – Regulamento das Competências Comuns do Enfermeiro Especialista, D. R. 2ª série, N.º 35 (de 18 de fevereiro de 2011) 8648-8653.

REGULAMENTO N.º124/2011 – Regulamento das Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem em Pessoa em Situação Crítica, D. R. 2ª série, N.º 35 (de 18 de fevereiro de 2011) 8656-8657.